Matinê


O horror do silêncio by Carícia Temporal

Alguns thrillers são marcantes pela sanguinolência. É de se esperar que facadas, machadadas e sangue jorrando na tela traumatizem o espectador. O trunfo de Kubrick em O Iluminado foi nos poupar de tal experiência visual, levando-nos a algo mais profundo e intimista. Este não é um filme de horror comum. Kubrick explora o ponto fraco do medo humano: a imaginação. Nada pode aterrorizar mais uma pessoa do que a própria mente. Através do terror psicológico, ele brinca com o espectador, que anseia a cada virada brusca da câmera, cujo coração da um salto a cada agudo da música ao fundo.

A história, adaptada do livro homônimo de Stephen King, é alvo de polêmica dos fãs do autor. Kubrick não seguiu a risca o roteiro de King, mas conseguiu dar sua interpretação da obra, além de abrir a possibilidade de inúmeras discussões. De qualquer forma, cerne da história está preservado: Jack Torrance (Nicholson) aceita o emprego de zelador durante a baixa temporada de um hotel no Colorado, onde deve passar os cinco meses de inverno sozinho com sua mulher e filho. Jack vê no isolamento uma oportunidade de escrever um livro, mas a solidão afeta a sanidade mental dele, que mergulha em uma espiral de paranóia e loucura. Enquanto isso, seu filho Danny tem visões do passado tenebroso do hotel assim como do futuro sombrio da família.

A trilha sonora na verdade é a chave da tensão da história. Do início ao fim do longa o fundo musical é o que cria o pavor que não nos deixa respirar aliviados até que os créditos finais apareçam, mesmo nas cenas mais inocentes. A melodia por si só é perturbadora. Cheia de agudos estranhos e zumbidos que remetem aos insetos das sete pragas do Egito, a trilha é parte do cenário. O uso do silêncio em alguns momentos é um recurso bem empregado: não dá pra saber o que dá mais medo, a música sinistra ou o silêncio cortante.

"HERE'S JOHNNY!" (Warner/Reprodução)

Apesar de toda a técnica impecável, O Iluminado não seria metade do que é sem o brilhantismo de Jack Nicholson. Dono de um longo currículo invejável, este provavelmente foi o papel mais valioso de sua carreira. Caiu como uma luva para Nicholson, que incorporou para si muitos trejeitos que criou para o personagem. Talvez por isso a ruína da sanidade de Jack Torrance seja tão natural, ainda que muito rápida. A cena mais famosa e clímax do filme (que aparece em todas as capas de DVD) é quando ele coloca o rosto na fenda que abriu a machadadas na porta. Neste momento ele diz a frase que improvisou na hora (“Here’s Johnny!”) e imortalizou-se. As expressões marcantes de Torrance praticamente personificam a loucura, que se tivesse um rosto, poderia até ter o sorriso do Coringa, mas as sobrancelhas seriam as do zelador do Overlook Hotel.

Da até pra torcer pra ele acertar. (Warner/Reprodução)

É importante ressaltar o brilhantismo de um ator veterano em um dos pontos mais altos de sua carreira. Mas também é preciso aplaudir o garoto Danny Lloyd pela atuação. A personalidade perturbada do pequeno Doc é vivida com tal veracidade pelo jovem ator que é difícil acreditar que ele não sabia se tratar de um filme de terror. Como a Sra. Torrence, Shelley Duvall convence no grito. Com feições que lembram uma mistura de coelhinho assustado com Cindy Campbell (Todo mundo em pânico), a expressão de terror não vem da boa atuação de Shelley, mas provavelmente da cara dela que é assim mesmo.

Por fim, o cenário de um grande hotel vazio é perfeito para que incidentes macabros aconteçam e a locação é bem explorada. As salas são grandes e vazias colaboram para reforçar a ideia de solidão. Tão bem feita cenografia pode ser admirada por causa dos belíssimos planos de câmera parada, onde é possível observar a harmonia das cores em cena. São os movimentos de câmera, entretanto, que rendem as melhores tomadas do longa: as cenas cruciais de perseguição e os compridos corredores que o garotinho percorre em seu velociclo.

Carícia Temporal



Venham brincar com a gente! by Clara Campoli
23/05/2011, 22:20
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Há 31 anos, estreava O Iluminado, adaptação de Stanley Kubrick do clássico de Stephen King. O terror tão esperado, com apenas um trailer assustador como promessa, se tornou um marco na história do cinema, principalmente por seu forte conteúdo imagético. Além, é claro, da cena clássica do pequeno Danny andando de velocípede pelo hotel assustador e da sequência com o machado de Jack e a esposa, o longa conta com aquela atuação que, embora tenha eternizado Jack Nicholson como “aquele ator com cara de psicopata”, é impecável em toda sua loucura.

Hi, Lloyd.

Pensando nisso, preparamos uma semana só para o Kubrick. Aguardem mais clássicos vindo por aí!



Então foi assim? by Clara Campoli

Guerra não é uma coisa bonita. As pessoas cometem atos desesperados, crianças são assassinadas, velhinhos morrem. Na instalação de uma ditadura (aqui chamada de Império), os sádicos saem das sombras e tomam posições de poder. Para a as pessoas comuns, mal existe espaço para ser gentil ou galante. No terceiro episódio de Star Wars, existem aqueles que lutam para manter a ordem, os que estão brigando pelo poder e os que apenas querem sobreviver. E, como é guerra, as brigas não são bonitas ou justas.

Ainda assim, é de se espantar que Jedis e Siths larguem sabres para distribuírem socos, chutes e cabeçadas uns nos outros. Ou que George Lucas achasse que a coisa toda ficaria mais atraente se o som das lutas não fosse o choque das espadas de luz, mas de corpos se batendo, como brigas comuns que vemos em qualquer tipo de filme com o mínimo de ação. Sem qualquer sofisticação, o Episódio III, na tentativa de criar um clima opressivo de guerra, tornou suas personagens, tão cheias de simpatia, insossas. Transformou wookie em Tarzan, Yoda em um chato e Padmé na maior chorona da história intergalática. Quero muito saber onde foi parar a política decidida, de discurso forte e carisma que encantou galáxias. Ao ser intitucionalizado o Império, ela nem torce o nariz, apenas faz cara de desolada. Natalie Portman se reduz a lágrimas e à morte por tristeza. Inconsistência, a gente vê por aqui.

Padmé só chora, do início ao fim. Impossível acreditar que essa é a mãe da princesa Leia. (Lucasfilm/Divulgação)

Toda a caracterização dos Jedi é perdida nesse episódio. Em alguns momentos, é possível desconfiar que eles realmente querem tomar o poder e controlar o destino daquele que eles consideram o escolhido, e não apenas ajudá-lo a não se perder dentro do lado sombrio da força. Samuel L. Jackson faz um esforço visível em tornar o mestre Mace Windu em um homem sério, mas ele se mostra apenas um cabeça dura que não confia na parte boa que ainda é possível ver em Anakin. E aquilo que todo fã busca nos filmes, a marca registrada de Star Wars é deixada de lado no filme, não raramente. Na luta entre Anakin e Obi-Wan, os dois esquecem que existem sabres de luz algumas vezes e começam a se bater. O exemplo mais claro disso, no entanto, é o embate entre Obi-Wan e Grievous: quando a coisa fica boa, quando o Jedi consegue arrancar dois dos quatro sabres de luz das mãos do Sith (e aí o vilão estranhamente diz que tudo vai piorar para o lado dele), eles simplesmente deixam de lado toda a coreografia de lutas que tanto atrai para saírem na pancadaria pura e simples. No final, Obi-Wan expressa o sentimento de cada fã: “Tão pouco civilizado…”

Para completar a ópera, Hayden Christensen resolve adquirir algum tipo de expressão durante o filme. Como é difícil transitar entre o turbilhão de emoções pelo qual Anakin passa, o ator (e vocês não fazem ideia de como foi difícil não colocar aspas nessa última palavra) adotou a filosofia de que ser mau é fazer cara feia. Até para dizer doces palavras para a esposa ele franze as sobrancelhas. Difícil de acreditar que essa criatura óbvia se tornaria Darth Vader, tão cheio de facetas e nuances por trás de uma máscara. Toda vez que Anakin diz estar sentindo algo ou quando alguém diz que vê que ele está perturbado ou triste, fiquei procurando a expressão por trás da cara de malvadão. Sinceramente, C-3PO, ao dizer, com aquela cara de lata, que está preocupado com o que vai acontecer convence muito mais.

Darth Vader em seu momento mais expressivo do filme. É sério. (Lucasfilm/Divulgação)

O filme vai se encerrado em um tom de “Entenderam? Foi assim!”, que só decepciona. E é aí que Lucas parece ter caído em si. Bom contador de histórias que é, mostra como as coisas se encaminharam, no final das contas, para começarem nas fazendas de umidade do tio Owen Lars. É um alívio ver a bebê Leia sendo adotada pelos Organa, o pequeno Luke sendo entregue a Beru por Obi-Wan, que jura vigiá-lo de longe. Triste mesmo é saber que Yoda se exilou, deprimido, e que Darth Vader não só achava que o bebê tinha nascido morto, mas que ele mesmo tinha matado a amada. Ainda assim, a trilogia nova não agradou milhares de fãs e não é a toa: o público de Star Wars prefere uma boa história à bela pirotecnia que se passa diante dos olhos nas mais de duas horas de projeção. O jeito é se submeter ao destino de R2-D2 e C-3PO: apagar a memória do que aconteceu e esperar pelas aventuras que virão.

Clara Campoli



Forma e conteúdo by masteurodrigues

No começo dos anos 2000, já chegando aos 56 anos de idade, George Lucas parece ter-se convencido de um clichê primário: boas imagens superam a necessidade de palavras. O ditado é uma das únicas explicações plausíveis para o roteiro de O Ataque dos Clones, penúltimo filme de Guerra nas Estrelas a ser produzido, e segundo na cronologia interna.

Lama Su, primeiro-ministro de Kamino (LucasFilm/ Reprodução)

O filme traz um apuro visual e sonoro maior que os quatro antecessores. O atentado contra a agora Senadora Amidala, nos três primeiros minutos de película, abre espaço para um desfile de explosões, voos, perseguições estelares e lutas corpo-a-corpo. Da vastidão arenosa de Geonosis (palco da maior batalha) ao chuvoso planeta Kamino e seus esguios habitantes, cada cena é milimetricamente calculada para arrancar gritinhos e sussurros do espectador. Por redundante que seja, é preciso citar o papel fundamental da trilha sonora de John Williams na ambientação do longa.

Os diálogos, no entanto, mostram-se tão básicos e mal-elaborados quanto uma peça teatral de colégio. Em Episódio II: O Ataque dos Clones, Lucas e sua equipe esbarram no erro mais comum e primário da ficção científica: o didatismo. A primeira hora de filme é marcada por um discurso político arrastado, onde nada fica subentendido e tudo é explícito, textual. Frases como “às vezes, existem coisas que ninguém pode consertar”, encontradas em qualquer romance barato, vão parar na boca de uma Natalie Portman apática e sem expressividade. E se o roteiro não ajuda bons atores como Christopher Lee e Ewan McGregor, o que dizer da performance do fraco Hayden Christensen?

Na película, não há um diálogo mais “profundo” que não seja quebrado pelo dinamismo de uma cena de ação. Se a câmera se demora um minuto na discussão política de Anakin e Obi-Wan, logo ambos estão em uma perseguição alucinada pelo espaço aéreo de Coruscant. Mesmo as juras de amor repentinas e cafonas do casal Skywalker-Amidala são interrompidas bruscamente por uma releitura do Coliseu romano, iniciando o ataque que dá nome ao filme. A morte de Shmi, primeiro indício da transformação iminente do herói em vilão, é retratada com a profundidade de um pires.

Natalie Portman como Padmé: vontade de gritar "Attack it! Attack it!" (Lucas Film/Reprodução)

Ainda assim, o filme presta belas homenagens aos episódios anteriores, como na cena em que C-3PO e R2-D2 entregam uma mensagem a Anakin Skywalker – quase idêntica à sequência de Uma Nova Esperança, envolvendo os robôs e outro jovem padawan. A breve aparição de Beru e Owen traz uma bela nostalgia à trama só para que, minutos depois, a silhueta de Darth Vader na sombra de Anakin retome a obviedade do roteiro. A luta de Yoda contra o Conde Dooku é de impressionar mesmo aqueles que, a esta altura, já estão bufando e pedindo o dinheiro do ingresso de volta.

Ao fim e ao cabo, o Episódio II é tão mecânico quanto a guerra que retrata, onde a grande força envolvida não tem letra maiúscula e é representada pelo poder da máquina, do artificial. Se a trilogia original conquistou um séquito de fãs pelo carisma de seu elenco, a nova se mostra disposta a convencer pelo espetáculo vazio. Em resumo, um filme onde sobra metal e falta alma – ou, em termos apropriados, mais pra Stormtrooper que pra C-3PO.

Mateus Rodrigues



Por fim, o começo by Carícia Temporal
George Lucas tinha TOC. Se não, alguma mania muito parecida se apoderou dele quando insistiu em produzir uma nova trilogia para Star Wars, sua obra prima. Certamente 16 anos fazem uma grande diferença no progresso tecnológico do cinema e é provável que isso tenha dado um empurrãozinho na hora do veredito final. Muitos podem culpar a ganância, mas prefiro não acreditar que ela sozinha seja responsável por um resultado que não é ruim por si só, apenas em comparação aos seus predecessores.
A Ameaça Fantasma foi rodado com a pressão da expectativa de milhares de fãs. Sedentos pela volta do maravilhoso mundo intergalático, por conhecer os fatos que geraram a história que eles já conhecem e, é claro, ouvir mais uma vez a belíssima e inesquecível trilha de John Williams, nerds do mundo inteiro criaram expectativas. Expectativas muito altas. Tão altas que dificilmente seriam correspondidas e o resultado, é claro, foi decepcionante. Com um roteiro fraco e pouca exploração dos personagens, o Episódio I revela-se um exibicionismo de uma tecnologia que com o passar dos anos impressiona cada vez menos.
Na história, as intrincadas relações políticas, que deveriam dar gás ao filme, só o fazem mais lento. A carga de emoção que tais artimanhas deveriam ocasionar é falha. As intenções são confusas e a trama não vai para a frente, dando a impressão de que nada acontece. Para solucionar o problema, cenas de ação (impressionantes, vamos reconhecer) são inseridas de qualquer jeito na história apenas para que os Jedis possam sacar seus sabres de luz e salvar o dia.
A dose exagerada e mal sucedida de comédia incomoda mais que em O Retorno de Jedi, quando a chamada “infantilização” da saga já tinha começado. O conflito de gerações de espectadores deixou o longa na corda bamba na hora de definir o tom do filme. A sucessão de fatos que levou à formação do Império Intergalático de Uma Nova Esperança pretende agradar aos mais velhos que acompanharam a saga original. Mas a tentativa de atrair um público mais jovem abortou o tom sério dos conflitos, principalmente através da figura de Jar Jar Binks, responsável por infantilizar o filme.
 

Jar Jar: a annoying orange intergalática (Lucas Film/Reprodução).

Possivelmente o personagem mais odiado da história do cinema, Jar Jar Binks tem função meramente comediante. O mérito do personagem é ter sua criação inteiramente feita por computador – um marco para o filme, vamos admitir. Mesmo assim, não convence enquanto agente solucionador no roteiro, se transformando em um personagem irritante (muito por causa da voz estridente) para os adultos e pouco divertido para as crianças. Curioso se comparar os equívocos na criação do computadorizado Binks à eficiência dos robôs C3PO e R2D2, interpretados por seres humanos. Kenny Baker (R2) e Anthony Daniels (PO) deram vida aos robôs durante toda a saga, sendo os únicos cujos personagens foram interpretados pelos mesmos atores nos seis filmes.

E por falar na atuação, este é mais um dos pontos fracos de A Ameaça Fantasma. A rainha Amidala, de quem se esperava maior força de combate e atitudes mais firmes, é retratada como uma menina ingênua de fala mansa. Tanto Natalie Portman como Keira Knightley estão apagadas no longa, em que as atuações que se salvam são apenas as de Liam Neeson e Ewan McGregor, além do pouquíssimo explorado Ray Park, na pele do terrível Darth Maul.

Futuro Darth Vader? Aham, senta lá. (Lucas Film/Reprodução).

Como o jovem Anakin, Jake Lloyd definitivamente não foi uma boa escolha. Com zero de emotividade, ele age o tempo todo como uma criança boba e ingênua, fazendo o alarde de Qui-Gon Jinn sobre ele parecer ridículo. É óbvio que ele não deveria já mostrar suas tendências para o Lado Negro da Força, mas teria sido de bom senso avisar ao pequeno Jake que ele se tornaria o maior vilão de todos os tempos. Ainda assim, é interessante observar a infância e a natureza humilde de Anakin, assim como toda a história que precede à saga original.

Apesar de merecer duras críticas, A Ameaça Fantasma foi e é o que poderia ser, dadas as circunstâncias da sua realização. Cheio de interesses comerciais e com sua mania de completar as coisas, Lucas nos mergulha novamente no mundo que imaginou – certamente com muito mais recursos que tinha em 77 – impressionando ainda mais com as cenas de ação. A corrida de pods e a batalha final de Qui-Gon e Darth Maul, ainda que sem contexto amarrado, entram para a história do cinema. Para quem conhece a trilogia antiga, certos diálogos chegam a ser dolorosos e os primeiros encontros de duplas marcantes (Anakin/Padmé, Obi-Wan/Anakin e C3PO/R2D2) emocionam (ainda que apenas do lado de fora da tela). Tal qual cavaleiros Jedi capazes de prever o futuro, assistimos ao desenrolar dos eventos carregando o angustiante fardo de conhecer o destino dos personagens. O encantamento, por fim, vem de descobrir como e quando eles chegarão lá.
Carícia Temporal


A (não) vingança de Jedi by Carícia Temporal

Mais difícil que começar um projeto, algumas pessoas dizem, é terminá-lo. Em 1983 pesava sobre os ombros de George Lucas a responsabilidade da grande expectativa de milhões de fãs da trilogia Star Wars.  Depois de 6 anos de naves viajando na velocidade da luz, frases feitas e muitos action figures e produtos vendidos, a saga original chegava ao seu último capítulo. Mais uma vez, a trilha já conhecida de John Williams iria encantar os espectadores retumbando durante os créditos iniciais: “Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante…” Na tela, entram em cena os personagens queridos já conhecidos e alguns novatos que rapidamente ganham a simpatia do público. Considerado por muitos o elo fraco da série original, O Retorno de Jedi confere à trilogia um desfecho que, mesmo sem arrancar suspiros, não decepciona a legião de fãs.

O maniqueísmo mencionado nas outras críticas tem maior destaque neste filme. O episódio VI começa com o plano de Luke, Léia e a Aliança Rebelde para resgatar Han Solo das garras de Jabba, the Hutt. A operação é uma dívida herdada do longa anterior, que inovou em deixar o Império Galático — ou seja, “o mal” — terminar a película em posição vantajosa, criando o suspense típico de fim de capítulo. A volta rende ótimas cenas de ação, ainda que não planejada. Originalmente, o destino do charmoso piloto seria morrer no final de O império Contra-ataca, sorte modificada pelo sucesso do personagem e do ator Harrison Ford, que já brilhava em outra série de filmes na pele de Indiana Jones. Assim, a primeira metade do filme dedica-se a salvar Solo para que comece a batalha final pela liberdade da galáxia.

A grande tensão que se desenrola na história é o iminente confronto entre Luke e Darth Vader, que na última batalha, revelou ser Anakin Skywalker, pai do jovem Jedi. Para concluir o treinamento dado por Yoda, o guerreiro deverá resistir às tentações do Lado Negro da Força, para o qual Vader tentará levá-lo. Estabelecendo a dualidade bem versus mal, a maior luta entre os dois Skywalkers é psicológica. De certa forma, os dois buscam reatar relações, só que de maneiras opostas. Orientado pelo Imperador Palpatine em pessoa, o pai quer despertar a ira de Luke, atraindo o filho para o Lado Negro. Luke apela para o lado bom que acredita existir em Vader e se recusa a atacar, apesar das provocações do Imperador, que supervisiona a cena.

Mesmo com a máscara, é possível ver o dilema de Vader em salvar o filho. (Lucas Film/Reprodução)

Ewoks: Dá vontade de apertar. (Lucas Film/Reprodução).

É visível no ato final da saga o crescimento de Luke Skywalker, após o treinamento Jedi.  Muito mais maduro, a insistência em não lutar demonstra o heroísmo que elimina a possibilidade de se deixar seduzir pelo Lado Sombrio, transformando-se no último e primeiro Jedi da Nova Era. A força de vontade de Luke explica a mudança de última hora do nome do episódio, que chegou a se chamar A vingança de Jedi. Ao se dar conta de que um Jedi não se vinga, Lucas voltou ao título inicial.

A batalha entre Luke e Vader  e a redenção final deste é o momento mais aguardado da história e certamente ofusca outros conflitos da trama. Talvez por este motivo, outros detalhes do roteiro foram um pouco descuidados, como a saída pouco criativa para gerar o motivo do encontro: uma nova Estrela da Morte. Enquanto Skywalker se prepara para o duelo de sua vida, seus amigos se aventuram numa espécie de aventura repetida de Uma Nova Esperança. O adicional de carisma do longa pode ser em grande parte inspirado pelos Ewoks, habitantes da lua de Endor — onde se passa boa parte dos acontecimentos. As criaturinhas, que mais se assemelham a ursinhos carinhosos se tornam decisivas para um final feliz. Pelo menos na tela. Em frente a ela, nunca é sem uma pontinha de tristeza que um fã se despede dos seus personagens preferidos.

Eu sei o que você fez, George Lucas! (Lucas Film/Reprodução).

Eu sei o que você fez, George Lucas! (Lucas Film/Reprodução).

Carícia Temporal



A jornada sentimental dos Skywalker by Clara Campoli

Há 31 anos, o mundo ouvia pela primeira vez não só a Marcha Imperial, magistralmente composta por John Williams, mas a terrível verdade: Darth Vader conta, a um Luke ferido e sem esperanças, quem é o pai dele. Com o sucesso do Episódio IV, a sequência da primeira trilogia de Star Wars chegou aos cinemas em 1980 com muitos dos elementos estéticos e narrativos que marcariam a série dentro da história do cinema. O Império Contra-Ataca conta com uma fotografia belíssima, além de uma cenografia complexa e bem construída, que realiza o belo trabalho de comunicar o clima do filme: enquanto a chegada na cidade de Lando Calrissian é tranquila, com belas nuvens, a primeira batalha entre Luke e Vader é em ambientes escuros, iluminados basicamente pelos sabres de luz.

Cenário, iluminação, fotografia. Aqui, tudo contribui para criar o clima ideal no filme. (Lucasfilm/IMDb)

Mais que um tremendo apelo visual, é neste episódio que finalmente as personagens, situações e conceitos apresentados no primeiro filme se desenvolvem. Sob o olhar tranquilo do diretor Irvin Kershner, é compreensível que a amizade entre Luke, Han Solo e Leia vá além da missão bem-sucedida no final do Episódio IV. Quando o jovem padawan se perde no planeta gelado de Hoth, Solo não só deixa de partir para acertar as contas com Jabba, mas arrisca a própria vida para salvar o amigo. Enquanto isso, Leia adota uma inédita expressão de fragilidade: preocupada com os dois, se preparando para a possível morte daqueles dois que ela tanto ama.

As nuances do lado bom e mau da Força são amplamente exploradas na figura de Luke que, na posição de aprendiz de Yoda, é suscetível tanto ao bem quanto ao mal. Isso fica bastante claro na cena do pântano em que ele enfrenta o próprio lado negro: a personificação de Vader tem o rosto do rapaz. No turbilhão de sentimentos e sentidos de um aprendiz de jedi, Luke não ganha apenas a clarividência que o leva a salvar Leia e Han, mas a noção de que ele está ligado a Darth Vader de alguma maneira (a intensidade disso, pobrezinho, ele nem desconfia). Mais tarde, o mesmo acontece entre ele e a princesa, quando ela o resgata da morte certa. Yoda já havia antecipado: existe outro Skywalker.

Um ponto muito importante do filme é a narrativa: bravamente, arrisca a empatia do trio principal para torná-los personagens mais humanos, sujeitos a emoções boas e ruins. Luke pode (ou não) se tornar um Sith, Leia deixa cair a máscara de super mulher para se apaixonar e sofrer, Han Solo se arrisca a abandonar a rispidez e as piadas maldosas por carinhosos abraços. Até mesmo Darth Vader escapa do maniqueísmo em cenas como a que o Imperador diz para ele buscar seus sentimentos para descobrir quem Luke é, ou quando um soldado o surpreende de costas, sem o capacete. Longe de ser uma máquina, ele é um ser humano que se mostra, no final do filme, um pai ansioso em reatar as relações com o filho.

Leia e Lando Calrissian: abre esse olho, Han Solo. (Lucasfilm/IMDb)

Dentro deste universo novo em Star Wars, destaca-se Lando Calrissian. O mercenário amigo de Han Solo é um canalha, canastrão, desonesto e mentiroso, apenas pelo próprio bem. Mas, quando a coisa fica feia para quem ele sabe ser inocente, revela-se um homem honrado e corajoso, disposto a arriscar o próprio pescoço para salvar uma cidade inteira da fúria do Império. Lando é a personificação da confusão de sentimentos que cerca todo o filme. E, por que não, um retrato daquilo que é tão especial no comportamento humano? C3PO e R2-D2 continuam sendo robôs bonzinhos e fiéis. As mudanças de atitudes e sentimentos em O Império Contra-Ataca são apenas uma pequena demonstração do que o episódio final guarda para os fãs que, tenho certeza, saíram das salas de cinema há 31 anos completamente apaixonados.

Clara Campoli



Um sabre de luz no escuro by masteurodrigues

Na década de 1970, a ficção científica tinha características bastante definidas. Os super-heróis invencíveis de caráter maniqueísta começaram a perder fôlego já no fim da 2ª Guerra Mundial e, mais de 20 anos depois, estavam fadados à ficção barata e às HQs de culto. À corrida aeroespacial, vencida pelos EUA em 1969 com Neil Amrstrong e Edwin Aldrin pisando na Lua, sucedeu-se uma produção cinematográfica marcada pelo contato entre os “terráqueos” e o habitante externo. O tema rendeu clássicos como O Enigma de Andrômeda (Robert Wise, 1971), Solaris (Tarkowskiy, 1972), Contatos Imediatos de Terceiro Grau (Spielberg, 1977) e Alien (Ridley Scott, 1979). O cinema de ficção científica sai de sua fase clássica de entretenimento, e passa a explorar conteúdos críticos, políticos e filosóficos.

Pois bem. Na contramão de tudo isso, um jovem cineasta com currículo restrito tentava emplacar um roteiro grandiloquente. Uma trilogia espacial com robôs, monstros, princesas e uma espécie de religião baseada na força interior. O herói da saga é o jovem Luke Skywalker, uma espécie de James Dean interplanetário com direito a olhos claros, ar de rebeldia adolescente e habilidades na direção. O maniqueísmo é expresso logo no letreiro da introdução e as duas horas seguintes reiteram,  incessantemente, a dualidade entre o bem e o mal. Mas como um filme teoricamente fadado a fracassar transformou US$ 11 milhões de investimento em mais de US$ 800 milhões de retorno financeiro ao redor do mundo, garantindo outros cinco filmes e arrebatando um dos maiores fandoms da história da cultura pop?

O robô-criança-cachorrinho R2-D2 desperta simpatia imediata do público com seus grunhidos e sua devoção ao "amigo" C3PO (LucasFilm/Reprodução)

A palavra-chave, aqui, é empatia. O projeto havia sido ridicularizado por boa parte dos executivos de Hollywood, e uma tentativa frustrada afundaria de vez a saga dos heróis de Tattoine. Em Star Wars – Uma Nova Esperança, absolutamente todos os personagens têm uma capacidade especial de cativar a atenção do espectador e construir o chamado “laço de identificação e projeção”, postulado pelo teórico Edgar Morin. De Obi-Wan Kenobi, bastião dos bons costumes, ao vilão arquetípico Darth Vader; do esperto mercenário de frases feitas Han Solo ao robô sem falas e infantilizado R2-D2; da petulante princesa Leia Organa ao subserviente androide C3PO. A trama expõe uma vastidão de raças, dialetos e localizações espaciais, lançando um olhar rápido sobre questões com alto potencial narrativo – é o caso da Força e dos guerreiros Jedi, que dariam o tom dos filmes subsequentes.

O filme marca, ainda, o lançamento comercial da Industrial Light and Magic (ILM), uma das principais referências em efeitos especiais para as décadas seguintes. O uso da tecnologia a serviço do enredo – e vice-versa – inspirou cineastas como Peter Jackson, James Cameron e Christopher Nolan. A visão tecnológica futurista da época pode parecer ultrapassada, com seus grandes botões vermelhos e paineis de controle, mas as naves e a reconstrução do espaço sideral ainda convencem, mais de trinta anos depois.

Luke Skywalker (Mark Hamill) e seu sabre de luz: sonho de consumo de 10 em cada 10 nerds dos últimos 30 anos (LucasFilm/Reprodução)

Outro trunfo do Episódio IV é a concisão do enredo principal. Uma Nova Esperança é a única parte da hexalogia com começo, meio e fim definidos – se nada desse certo, e o universo de Star Wars não tivesse uma outra chance na tela grande, a obra seria suficiente em si mesma. Para a alegria de George Lucas, o filme bateu todos os recordes comerciais e assegurou outras dez horas de película.

34 anos depois, não existem muitas surpresas para o novo espectador da saga. Qualquer criança de seis anos sabe que Darth Vader é Anakin Skywalker, pai de Luke e Leia, treinado por Obi-Wan para lutar nas Guerras Clônicas e… bom, tudo aquilo que será contemplado nas outras críticas. Ainda assim, a estreia de Guerra nas Estrelas no cinema é um filme histórico, que demonstra o poder de um enredo clássico e a força – com perdão do trocadilho – da narrativa de ficção na cultura dos últimos anos.

Mateus Rodrigues



A Força está conosco by Clara Campoli

O Império Contra-Ataca comemora, amanhã, 31 anos de lançamento. O retorno de Luke, Leia, Han Solo, Chewbacca, C3PO, R2-D2 e, é claro, Darth Vader para as telas foi um grande evento no ano. A continuação do filme que se tornaria uma das sagas mais bem sucedidas da história do cinema. Imaginem o choque de descobrir, naquele 17 de maio de 1980, que Darth Vader é o pai do Luke. Batidão hoje, mas ninguém sabia disso há três décadas.

Esta semana será dedicada a Star Wars: do maravilhamento que é a primeira parte da série à decadência da segunda. As críticas serão postadas na ordem de lançamento dos filmes (que é a sequência que, para nós, é a ideal para assistir).

O trio principal e George Lucas: não tem fã que não ame. (Lucasfilm/IMDb)

Hoje começamos, portanto, com o Episódio IV. Aguardem!



Vossa majestade, Audrey Hepburn by Clara Campoli

Aos 24 anos, Audrey Hepburn ganhou seu primeiro papel principal e, com ele, a primeira de suas quatro indicações ao Oscar de Melhor Atriz (e foi a única vez que ela ganhou o prêmio). A Princesa e o Plebeu (1953) é um filme cuja aparência pode enganar. A história um tanto quanto óbvia de uma jovem da realeza que quer sair da gaiola e acaba encontrando um príncipe entre os comuns é alçada a um novo patamar ao nos depararmos com as personagens pouco óbvias que o filme nos apresenta. A começar pela própria princesa Ann (Audrey Hepburn), que logo nas primeiras cenas se mostra infeliz com a vida que tem, permeando o comportamento exemplar com gafes adolescentes. Depois temos Joe Bradley (Gregory Peck), o repórter escravizado pelo patrão e sem dinheiro para voltar de Roma para Nova York. Por fim, Irving Radovich (Eddie Albert), o fotógrafo divertido que também interage com Joe para complementar a carga dramática.

Mocinha divertida, herói sofrido e amigo piadista: estrutura clássica da comédia romântica já em 1953 (Divulgação/Paramount Pictures)

Sendo um filme que trata, em boa parte, de jornalismo sobre a realeza (que, como vimos na semana passada, mistura fofoca com política internacional), nada mais natural que começar com um boletim de notícias. Somos apresentados ali mesmo à jovem Ann que, depois de divertir os espectadores com a cena do sapato na cerimônia oficial, chama a atenção para sua prisão na crise histérica infantil que tem antes de dormir. Dopada, Ann foge da embaixada de seu país em Roma e, entre trancos e barrancos, acaba topando com Joe, o repórter charmoso, sem coração e sem escrúpulos. Além de impagável, a sequência da jovem drogada é interessante para notar as diferenças entre a princesa e o plebeu, como na cena em que ela garante a ele permissão para se retirar (do próprio apartamento).

No dia seguinte, começam os “pré-conceitos” com o jornalismo, que serão revertidos no final da trama. Ao perceber quem era a jovem que o seguiu durante a noite, Joe promete ao editor-chefe uma exclusiva com a princesa Ann, por U$ 5.000 (que na época era o suficiente para voltar a Nova York). E então começa a acompanhar a moça, que passeia pela cidade como uma qualquer. As roupas da princesa refletem as mudanças que se operam na cabeça dela durante o dia: começa a manhã com uma camisa abotoada nos pulsos, meia-calça, sapatos e longas madeixas, para voltar ao palácio com as mangas dobradas, sandálias compradas na rua e um moderno corte de cabelo. Quem vê a felicidade da menina pensa que ela vai fugir da realeza para sempre.

Enquanto isso, o fotógrafo Irving tira fotos e mais fotos do passeio da jovem. E, a cada lugar romântico romano, Joe vai se encantando com a menina que, mesmo tendo o nariz em pé por causa da criação que recebeu – como na cena em que pede champanhe em um café da rua -, é encantadora, aventureira e muito divertida. Vale destacar também, durante os passeios, o momento em que o repórter diz à moça que ela é a melhor mentirosa que ele já contou, e aí a carapuça serve perfeitamente bem nele. O contrário acontece durante o baile, em que Ann se pergunta que tipo de pessoa generosa e gentil ele era, porque realizou todos os desejos dela naquele dia. Um Joe pensativo e cheio de remorso aparece na tela, mas logo volta ao estado de fingimento que manteve durante toda a tarde. Como se tivesse abanado uma fumaça que lhe atrapalhava a visão.

As cenas do casal na cidade eterna são simplesmente encantadoras. (Divulgação/Paramount Pictures)

Mas de nada adianta, porque minutos depois Joe cai em si e percebe que está realmente apaixonado pela menina. Depois de uma despedida de partir o coração, o jornalista resolve que não vai publicar entrevista alguma. O jornal, o editor e o dinheiro não valeriam a exposição que a amada sofreria. E até mesmo Irving se convence disso e apóia o amigo. Enquanto isso, Ann volta à embaixada altiva e segura de si, bem diferente da menininha que começou uma birra porque não aguentava mais a rotina de princesa. Dá ordens e caminha com os próprios pés, deixando claro que só voltou porque entende o compromisso que tem com o reino e com a família real. Com uma despedida final entre Joe e Ann durante a famigerada coletiva de imprensa, marcada por longas pausas recheadas de expectativas, o diretor William Wyler encerra a projeção da forma mais inesperada possível, tendo em vista a sinopse clássica: com a crueza da realidade.

Clara Campoli




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