A feiticeira da guerra – Infâncias roubadas

Komona (Rachel Mwanza) entrou para a guerra aos 12 anos, matando os pais. Mas não fica sem a figura de ambos: ganha de seus captores um rifle, que ela deve “respeitar como se respeita mamãe e papai”. Em algum ponto da África sub-saariana, a história de A Feiticeira da Guerra começa suja, dolorosa, ao som de tiros e ameaças. A vila da menina é saqueada por rebeldes que lutam contra o governo e fazem de crianças órfãs pequenos soldados.

Em um segundo ritual de iniciação, os prisioneiros são obrigados a beber a seiva de uma árvore, que provoca fortes alucinações em Komona. A garota começa a ver os fantasmas – lindamente representados por maquiagem – nos campos de batalha, que a ajudam a saber onde está o inimigo e a se proteger contra as balas que poderiam matá-la. Quando seus superiores percebem esse poder, a nomeiam feiticeira da guerra e a levam ao palácio do cérebro de toda operação, Grande Tigre Real.

Eu vejo gente morta: os fantasmas de Komona são um assustador e bem-vindo deleite visual

Eu vejo gente morta: os fantasmas de Komona são um assustador e bem-vindo deleite visual

A situação em que Komona vive é de uma pobreza que impressiona. No período de três anos do filme inteiro, ela aparece vestindo cerca de cinco figurinos. O palácio do Grande Tigre Real é um prédio abandonado e as casas em volta parecem estar prestes a desabar. E nesse universo em frangalhos, a religiosidade e a superstição reinam. Desde a seleção de qual rifle cada criança vai usar até a confecção de amuletos para se proteger da guerra, os xamãs, mágicos e feiticeiras acompanham os rebeldes.

As crianças do bando de Komona sabem atirar, matar e realizar extensivos trabalhos braçais. Aos 13 anos, ela não tem qualquer resquício de infantilidade consigo. Lá e cá, seu amigo Mágico (Serge Kanyinda) ainda inventa algumas brincadeiras, como a luta cheia de berros, como em um filme oriental, ou quando “lê” uma história assustadora para as outras crianças em um manual de carro. Ao fugirem juntos, os dois tentam recuperar alguma leveza ao mesmo tempo em que ele tenta, com sucesso, conquistar o amor dela.

Entre brincadeiras e flertes, Mágico e Komona perdem fatalmente a infância para a guerra

Entre brincadeiras e flertes, Mágico e Komona perdem fatalmente a infância para a guerra

Para Komona, a guerra e os fantasmas chegam duas vezes, do mesmo jeito. A menina de 14 anos é obrigada a matar de novo, e de novo, e de novo. Quando deveria estar começando uma vida amorosa e sexual, tem no ventre um filho do estupro, com o qual conversa durante todo o filme. Com corpo de criança e voz de idosa, a feiticeira pede a Deus forças para não odiar essa criança, ao mesmo tempo em que pede para poupá-la da morte que a persegue com os fantasmas dos pais. E mesmo quando tudo parece bem no subir dos créditos, ainda é de se supor que a guerra a encontrará novamente.

Indicações ao Oscar 2013: Filme estrangeiro.

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