Indomável Sonhadora – O lado selvagem da fantasia

A “Banheira”, como é conhecida a região miserável e periodicamente inundada onde vivem a pequena Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) e seu pai (Dwight Henry), Wink Doucet, é um lugar pouco atraente. O barraco e o trailer onde vivem os Doucet (separadamente) estão caindo aos pedaços e uma grande tempestade se aproxima. Com este quadro trágico, agravado pelo péssimo estado de saúde de Wink, Indomável Sonhadora poderia ser um filme triste e melancólico. Mas não é. A partir do ponto de vista da menina, o diretor estreante Benh Zeitlin nos apresenta uma comunidade de bravos sobreviventes.

Na Banheira, as pessoas não sentam e choram “como um bando de covardes,” é o que constantemente nos alerta Hushpuppy. Ela tem orgulho disso e de viver na Banheira, por pior que ela possa parecer. Na realidade da garotinha de 6 anos, misturada às fantasias genuínas de criança, todos que residem na região são fortes e valentes. A imaginação da menina os retrata com um toque de selvagem, indomável e animal, reforçado na presença das enormes (e ameaçadoras) criaturas suínas que a garota cria para si. Neste ponto, nota-se que Indomável Sonhadora obtêm maior sucesso que As Aventuras de Pi, que também evidencia – de forma bem menos sutil – a imaginação (ou a fé) como válvula de escape e a transformação do eu humano em animal.

“Somos Doucet! Não temos medo de nenhuma tormenta!”

“Somos Doucet! Não temos medo de nenhuma tormenta!”

É impossível não se apaixonar pela encantadora Hushpuppy de Quvenzhané Wallis. Mesmo com pouca idade e tamanho, a pequena atriz é a alma do filme, do cabelo às botinas de borracha. Tal como os habitantes da Banheira, onde a dureza do ambiente se reflete no comportamento das pessoas, Hushpuppy é uma força da natureza. Desde o visual às reações inesperadas, a menina se mostra pertencente a um seleto clube de crianças do cinema que são soberanas de si e nem por isso deixam de ser crianças. A lembrança do personagem Max, de Onde vivem os Monstros é automática. A relação com o pai, dificultada pelo abandono da mãe e esposa, conquista o espectador de modo que este não busque a lógica dos fatos, mas as emoções por trás deles.

Para o sucesso de Wallis, contribuiram, além do talento da adorável menina, a parceria com Dwight Henry. Na pele do pai em estado terminal, a imperatividade de ensinar a filha a sobreviver sem ajuda emerge de maneira natural no comportamento do ator em cena. Em um dos momentos finais do filme, o cumprimento de tal tarefa fica evidente no olhar de Wink para Hushpuppy, finalmente completa em seu processo de construção da autonomia.

Doce e valente: Quvenzhané rouba corações

Doce e valente: Quvenzhané rouba corações

Nesse meio tempo, tomadas belíssimas são apresentadas na tela. Do ambiente destruído pela água e cheio de animais mortos, Benh Zeitlin extrai imagens sensíveis que tentam mostrar a Banheira tal como ela vista pela protagonista: o lugar mais lindo do mundo. Com baixo orçamento para efeitos especiais, o longa quase os dispensa. A realidade dura aparece na tela de maneira crua, porém, aventureira e surrealista como a fantasia de uma criança.

Indicações ao Oscar 2013: Melhor filme, diretor, atriz e roteiro adaptado.

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