Uma história de amor e fúria – Animação brasileira, sim!

Com design de HQ e um roteiro sobre fatos históricos dolorosos, Uma história de amor e fúria é o novo orgulhinho nacional. O primeiro grande trunfo é a dublagem, construída no ritmo dos movimentos e comportamento dos personagens, dando um ar cuidadoso que é raro nas dublagens em português nas animações estrangeiras. Da natureza exuberante do Brasil do descobrimento ao cenário futurista de um mundo morto de sede, a produção é cuidadosa ao inserir detalhes que tornam a história mais humana, como a doce presença de crianças no decorrer da história ou as cenas de amor entre Janaína (Camila Pitanga) e o protagonista (Selton Mello).

A história começa com a invasão dos portugueses nas terras tupinambás da baía da Guanabara. Quando o protagonista, um índio da tribo, passa pelo ritual que o tornaria homem, ele é obrigado a saltar de uma grande altura para salvar a si mesmo e a mulher amada. Ao conseguir voar, uma força do bem o escolhe para ser aprisionado no corpo de um pássaro, que só se libertaria quando derrotasse a força do mal e compreendesse o significado disso. Em sua primeira luta de classes, o protagonista é obrigado a ver Janaína morrer, e parte em um voo desolado, sem conseguir viver sem a companheira.

O amor do protagonista e de Janaína é a força motora da história. Momentos de amor livre fazem a luta valer a pena

O amor do protagonista e de Janaína é a força motora da história. Momentos de amor livre fazem a luta valer a pena

As lutas de classe que se seguem são mostradas cruas, como provavelmente aconteceram, e como nunca são lembradas em livros de história e em estátuas e nomes de ruas nas cidades. Os homens negros que lutaram na Balaiada, no Maranhão do século XIX, são estatística. Os garotos que apanharam nus no pau de arara, levaram choques e se viram torturados até contarem onde estavam os companheiros revolucionários são um número desconhecido, esquecidos nos porões da Ditadura Militar. No noticiário sobre a pacificação do morro da favela, os heróis do protagonista viram notícia velha do jornal.

Janaína é a força principal da saga do protagonista pelos séculos de história do Brasil. Divertida, apaixonada e boa de mira, ela é sempre uma mulher forte, com postura de líder. Ela está sempre no lado oprimido da luta, e até mesmo quando o protagonista se cansou de perder a briga e de ver heróis mortos, ela persevera. Talvez porque não tenha visto tantas lutas perdidas, como é o caso do protagonista.

Janaína: heroína, mocinha, revolucionária e resposta aos 600 anos de vida do protagonista

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É interessante que o aprisionamento do protagonista seja no corpo de um pássaro que pode voar entre os séculos. A imagem da ave, livre, voando, é exatamente contrária à ideia do cárcere, mas é o que acontece com ele. A libertação, o pajé não contou, estava no retorno à origem, no primeiro salto cheio de fé do casal, antes da destruição do sonho de liberdade dos índios — e outros tantos — brasileiros.

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