A bela que dorme – linha tênue entre a vida e a morte

Da ruas do Vaticano para a intimidade de uma família italiana, o novo longa de Marco Bellocchio explora fusões e disparidades entre vida pública e privada. Ao retratar um drama familiar cujo desfecho será decidido por parlamentares alheios ao núlcleo envolvido, A Bela que Dorme pauta uma trama que mostra os contornos políticos e religiosos que tomaram a história (real) de Eluana Englaro, jovem que passou 17 anos em coma na Itália.

Servillo como Beffardi: responsabilidade e pressão

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Apesar de abordar questões éticas extremamente polêmicas, a produção atrai espectadores ao cinema mais pelo renome do experiente diretor no comando que por apelo próprio. Tema forte, de discussões acaloradas, não há quem fale em eutanásia sem assumir algum tipo de posição. Mas mesmo lidando com uma polêmica de neutralidade difícil, o roteiro não diz a que veio e se recusa a assumir posicionamento em relação ao tema. Se foi a intenção, a estratégia de deixar no ar a opção para o espectador decidir, oferecendo-lhe uma gama de argumentos de ambos os lados, é falha na medida em que não oferece novidade aos questionamentos que propõe.

O roteiro caminha por um recurso que se tornou comum: picotado em múltiplas histórias e multifacetado até culminar na união das tramas individuais por meio do tema central. Às portas do Vaticano, na Itália religiosa em que a eutanásia é proibida, o pai de Eluana luta pelo fim do sofrimento da jovem, enquanto aguarda o julgamento dos homens e de Deus, segundo manifestantes católicos. Em meio à polvorosa de protestos e ao furor midiático montado sobre o caso, um dos homens que decidirá o destino da paciente é o senador Beffardi, que sofre pressões das lideranças de seu partido e até da própria filha. Esta, que tem um passado envolvendo o tema, se envolve com um simpatizante da eutanásia. Ninguém sai ileso ou neutro, com exceção, talvez, de Bellocchio.

A Madre Divina de Huppert como defensora dos dogmas católicos

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A opção dos planos escuros e sóbrios corroboram para pintar o quadro mais sombrio da trama. Outros diretores já trataram do tema com sucesso de maneira mais colorida, como Pedro Almodóvar em Fale com Ela, mas A Bela que Dorme acerta ao escolher trevas como narrativa estética. Dogmas religiosos, conchavos políticos, interferência da imprensa, conflitos éticos e o próprio cenário do país dividido, aparecem nos tons cinzentos, nublados, densos e frios que refletem as conotações morais envolvidas.

O desfecho mostra sensibilidade com o beijo da morte que liberta a bela adormecida, assumindo um quê de conto inspirado na realidade. É uma pena que o filme não força suficiente para, após passados quatro anos do incidente real (Eluana teve o suporte artificial desligado em 2009), retomar o debate. Indicado nos festivais de Veneza e Toronto, o longa que poderia ser a contribuição de um grande diretor a uma grande temática, vai engrossar a lista de obras belas e poéticas que não serão lembradas.

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