Cazuza – O Tempo Não Pára – O homem além do mito

Era ainda adolescente quando assisti Cazuza – O tempo Não Pára pela primeira vez, em 2004. Lembro perfeitamente de ter saído em transe da sala de exibição, encantada com o talento precioso do artista que – tantos diziam – foi o poeta de uma geração. Como não pertenço a ela, assisto a mesma película hoje, quase uma década depois, com a certeza de que não foi o longa, mas o homem que a inspirou que provocou tal impressão.

Cazuza era visceral. Nisso, sua cine biografia foi infalível em retratar. Daniel de Oliveira deu sangue e vida ao papel, o que lhe conferiu assustadora semelhança com o biografado. Em cena, Daniel aparece inspirado, principalmente quando canta ou dialoga com a mãe, Lucinha Araújo, brilhantemente encarnada pela diva Marieta Severo, cuja participação na história do filho é comovente.

Daniel se doa a Cazuza. Visceral e confiante

Privilegiada com o tempo e o espaço de que um filme não pode dispor para contar sua história, no livro Só as mães são felizes, que deu origem ao filme, Lucinha Araújo nos diz muito mais sobre o filho e sua intimidade que a lenda retratada na tela. Mesmo sendo a verdade relatada pela ótica de mãe. O Cazuza dos diretores Sandra Werneck e Walter Carvalho é aquele que conhecemos na TV. O polêmico, efusivo, exagerado que canta em suas letras. Em contrapartida, outro pedaço de suas letras ficou de fora do retrato.

Em tela vemos um garoto muito intenso, que ganha contornos de mimado, quase rebelde sem causa. Tal suposição não combina com as letras cheias de ironia, emoção e protesto que viraram hino e palavras de ordem de uma geração. Isso faz parte do que ficou de fora e contribuiu para evidenciar o quanto a pesquisa sobre as ideologias que sobravam no compositor ficou rasa. Cazuza era a lenda e muito mais que ela, o que o filme preferiu não mostrar, em detrimento da ideia do poeta idealizado, cheio de frases de efeito, meio “cool”. A depender de O Tempo Não Pára, Cazuza hoje seria um hipster dos mais caricatos (e chatos).

Além das incursões de sabedoria do protagonista, o fio condutor da história são músicas: Werneck e Carvalho apresentam a vida de Cazuza em um álbum de “greatest hits” em que o próprio artista nos conta sua vida. Picotada em momentos marcantes, o roteiro não trabalha  a passagem do tempo em momento algum, provocando estranheza em relação a locações e figurinos entre uma cena e outra. A história perde fluidez e continuidade, ainda que o período escolhido seja relativamente curto e contemple apenas carreira e doença.

Quase filtro do Instagram: tudo na tela fica lindo em granulado

Por esse e outros motivos, toda a atmosfera é passional. É perceptível o cuidado da fotografia em trazer planos bonitos e melancólicos, com ares da época. De tão subjetivos, beiram o caos, deixando em evidência o turbilhão de sentimentos do protagonista. Uma das mais belas cenas, em branco quase total e filme estourado, é quando Cazuza está mais à flor da pele, na praia, após descobrir que tem o vírus HIV.

Nesta última fase, mais uma vez somos obrigados a aplaudir não apenas Daniel de Oliveira, mas toda a equipe de maquiagem e produção. É uma pena, contudo, que o apelo emocional que leve o espectador à comoção se concentre na decadência física em função da doença. Nem mesmo o choque diante do tamanho preconceito e ignorância da época sobre o vírus é mostrado com a relevância devida, visto que o roteiro omite o momento em que Cazuza admite publicamente ter AIDS. Mesmo com todas as falhas, O Tempo Não Pára termina em bossa. E a inevitável emoção do desfecho culmina na transformação de biografia em homenagem.

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