Noel – O Poeta da Vila – Malandragem Cativante

Acredito que cinebiografias que tentam contar toda a história de uma personalidade famosa tendem a dar muito errado. Em algum momento, o diretor perde o ritmo e os atores se desvalorizam com uma maquiagem que pode transformá-los em bonecos de cera – como foi o caso do fraco J. Edgar. No caso de Noel Rosa, este erro dificilmente seria cometido: o sambista morreu aos 26 anos, vítima de tuberculose, sem sequer ter conseguido amadurecer na carreira.

Em Noel – O poeta da Vila, a curta carreira de Rosa (Rafael Raposo) é retratada com seus grandes sucessos de Carnaval, sambas entristecidos, magoados e, algumas vezes, infantis. Noel morreu muito jovem. A história começa com o encanto do jovem, aos 17 anos, com a malandragem: já apaixonado pela música, troca seu primeiro grupo de bolero, o Bando de Tangarás, pela boemia negra e pobre do samba, pelas prostitutas e pelos amigos malandros. Depois de vender seu primeiro samba de Carnaval, a carreira deslancha, bem como a escalada pela vida boêmia.

Raposo na pele de Noel: interpretação cativante de um malandro amável

Na companhia de Cartola, Aracy de Almeida, Ismael Silva e de seu nêmesis, Wilson Batista, a carreira meteórica de Noel Rosa se mistura a dois amores: o de Linda (Lidiane Borges), a adolescente com quem ele foi forçado a se casar, e o de Ceci (Camila Pitanga), a dançarina de cabaré por quem ele se apaixonou em uma festa de São João. Para Noel, tudo é som: o apito da fábrica onde Linda trabalhou, o som dos pés batendo nas pedras da rua alagada, o grampeador de Ceci. Noel era tão insolente que até o Hino Nacional serviu de melodia para uma de suas canções de maior sucesso, Com que roupa.

No papel do gênio, Rafael Raposo apresenta um Noel muito malandro, que vive embriagado, não para de fumar e não resiste a um belo par de pernas. Por mais que ele não tenha jeito, é impossível não simpatizar com o queixo torto, a voz mansa, o olhar carente e o cuidado extremo com os amigos. Quando o pai se mata, Noel confidencia a Cartola: a avó dele também havia suicidado, mas ele não herdaria esse traço familiar. E mesmo sabendo da tuberculose, não se aguentou na tristeza da morte do pai e do abandono de Ceci e continuou bebendo, fumando e mantendo uma vida longe do que era saudável. Noel era um menino sem limites, que acabou morrendo cedo demais.

A triangulação amorosa no filme também cativa. O diretor optou por não transformar Linda em uma mulher antipática, mas em uma moça triste no casamento, forçado por uma sociedade patriarcal e machista de um Brasil não tão distante do atual. Ceci, por sua vez, é vítima da tuberculose de Noel, obrigada a ouvir que ela havia passado a doença para dele. O amor do rapaz do queixo deformado com a linda dançarina acaba cheio de mágoa, mas implacável: até o último carnaval, os dois se amaram. Aqui é bom chamar atenção para a atuação de Camila Pitanga, tão visceral ao retratar uma mulher forte e apaixonada.

Noel e Ceci, amor de São João abreviado pela tuberculose

Alguns enquadramentos do longa são um pouco incômodos, como a câmera virada na primeira vez que Noel sobe o morro para a casa de Cartola, mas de maneira geral, o visual agrada. Com uma direção de arte impecável e a melhor trilha sonora possível, Noel – O poeta da Vila é uma bela obra, de fazer entristecer pela curta vida do poeta, ao mesmo tempo em que orgulha qualquer brasileiro que preze um bom samba.

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